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O racismo tem dessas coisas

Em novembro, mês em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra (20/11), o CRPRS retoma a campanha "O Racismo tem dessas coisas". A iniciativa busca o enfrentamento do racismo apresentando histórias reais de discriminação racial. Assim, convoca psicólogas e psicólogos a escutar o sofrimento causado pelas vivências discriminatórias e a refletir e repensar sua práxis. Utilizando-se da clínica do testemunho, os depoimentos expõem vivências de angústia e desamparo que muitas vezes ninguém quer saber ou que tem seu impacto subjetivo minimizado. 

Mulheres negras e homens negros são convidadas e convidados a narrar suas histórias de violência, de humilhação, das desigualdades sociais/raciais, da fragilidade na garantia dos direitos e da destituição de poder da população negra. A proposta é a de que esses depoimentos se tornem instrumentos essenciais para a construção e problematização de uma escuta qualificada das dimensões do racismo, para possibilitar a superação através da construção de novos sentidos para as vivências sofridas.

Clique aqui e participe enviando seu depoimento. Os relatos serão analisados pelo Núcleo de Relações Raciais do CRPRS e selecionados para publicação em nosso site e nas redes sociais do CRPRS.


Confira os depoimentos já recebidos:

Há dez anos trabalho como psicóloga em um município do interior, mas trabalhei por 15 anos como monitora da extinta Febem/FPE. Nesse período, lembro de presenciar uma discussão entre duas meninas com idades em torno dos 10 anos: uma branca/loira e outra negra. A menina negra tinha uma grande "liderança" no grupo, todas as outras meninas a respeitavam muito e tinham, até mesmo, medo dela, pois era bastante agressiva. Nessa ocasião, após vários xingamentos mútuos e extremamente ofensivos, a menina branca falou: “Mas eu sou branca e o meu cabelo é bom e tu é uma nega de cabelo ruim". A menina negra calou-se de uma maneira surpreendente e pude, enquanto negra, compartilhar, naquele momento, do sentimento de menos valia que a consumiu. Foi como se nada mais pudesse ser tão aniquilador. Foi muito triste ver e sentir o quanto esta discriminação estava ali latente, pulsando, enraizada em duas crianças.

Lucinara Padilha

 


O fato de me ver/declarar negra foi uma construção feita ao longo de anos. Nasci e cresci em uma cidade de colonização italiana, onde nunca fui considerada negra, mas, sim, "moreninha" em razão da cor da minha pele e da miscigenação na minha família. Essa substituição de palavras revela o racismo em sua face mascarada, o racismo à brasileira. Muitas vezes calei diante de uma piada racista, ou ri junto, ainda que me sentindo desconfortável, apenas para garantir pertencimento ao grupo. Não ser nomeada enquanto negra me conferia uma certa proteção, mas com o passar dos anos percebi que perdia muito mais do que ganhava. A capoeira me conectou às minhas raízes africanas e fui descobrindo em mim uma identidade racial há muito usurpada. Aos poucos fui buscando referências em autores, escritores, músicos, locais de encontro, textos, narrativas. Pouco a pouco encontrei minha negritude. Escolhi o tema de identidade racial para o trabalho final de graduação e na banca fui questionada sobre a relevância do tema para a Psicologia. Ora, até quando vamos ignorar o racismo e as consequências dele na vida das pessoas? Hoje trabalho com Saúde da População Negra e demais diversidades, pois entendo que é fundamental a garantia de direitos e reparação à população negra. Tenho lido casos de desserviço por parte de alguns colegas que entendem o racismo como vitimização e não conferem legitimidade à demanda de negras e negros. Respondendo à pergunta que me foi feita anos atrás: Sim, a Psicologia pode – e deve – se ocupar do tema. Esse é um desafio cotidiano que está posto a todas e todos nós.

Djeniffer Rodrigues Coradini

 


No meu trabalho, diariamente preciso visitar residências com intuito de realizar vistorias, buscando possíveis larvas do mosquito Aedes Aegypti, causador da Dengue, do Zika Vírus, da Chikungunya, entre outras. Certo dia, após me identificar, um morador da cidade de Alvorada, onde trabalho, me fez a seguinte pergunta: “Você é da dengue?”. Após me identificar novamente, respondi prontamente que sim e que se fosse permitido, precisaria realizar a vistoria no pátio. Ele me perguntou: “Mas onde está a branquinha? Quem vem aqui é aquela branquinha!” Ou seja, mesmo diante da minha correta identificação, o morador em questão esperava ser atendido por uma das minhas colegas brancas, o que não faz nenhum sentido, infelizmente não tinha testemunhas na hora do ocorrido, o que me impediu de registrar a queixa ou formalizar a minha denúncia. E para quem não acredita, nós negros ainda passamos por constrangimentos, quase que diariamente.

Vanessa Aquino Garcia

  


Há 2 anos, comecei meus estudos no curso de Psicologia em uma instituição privada e logo no primeiro contato com as pessoas daquele espaço percebi que fui colocada em um não lugar. Onde eu, mulher negra, periférica e bolsista não aceitei ficar. No primeiro dia ao entrar no elevador algumas pessoas acharam que eu era ascensorista, nos demais e até hoje as pessoas me confundem com alguém de trabalha na instituição e não como alguém que estuda e está no mesmo patamar que elas, ou até além. Cada dia nesse ambiente sinto que a minha presença na faculdade é uma afronta e que o desgaste emocional que tenho é enorme, o que também me preocupa enquanto futura profissional de psicologia: Quem liga para a saúde mental de pessoas negras? Como trabalhar essa questão se há poucas pessoas negras no ensino superior se qualificando formalmente para isso? E quanto à grade curricular e planos de ensino, onde estão as questões etnico-raciais? Apesar do espaço hostil largar a faculdade não é uma opção, não depois da minha mãe ter quebrado o ciclo de mulheres negras da minha família estarem inerentemente ligadas a profissão de doméstica. Após as leituras de Frantz Fanon, percebo que há muitas máscaras brancas para derrubar, muitos espaços que são meu por direito para conquistar e que, sendo mulher negra é sempre preciso fazer três vezes mais que os outros para obter reconhecimento. E esse é só o começo e eu, assim como outras, existimos e resistimos por uma sociedade igualitária e democrática e estamos no caminho para essa mudança. Quando uma mulher negra vence, a conquista é de todas. Ubuntu!

Alice Carvalho

 


› Uma nova relação

Foram necessários 32 anos pra eu estar pronta pra deixar meu cabelo natural...
O estranho, ao tomar a decisão, é que notei que na realidade não sei muito bem como é meu cabelo natural...
Foram anos de tranças, henê, rolos, pente quente, alisantes... Tantas coisas...
O mais legal tem sido ver a reação das pessoas... O olhar... Tem quem ache engraçado ou ridículo, de uma maneira que PODERIA me ofender... Tem quem fique admirado... Tem quem aja naturalmente... E tem quem apoie e faça questão de dizer algo legal sobre minha escolha... Neste findi adorei o olhar de um nenê, ele fez a análise dele e na nossa conversa sem palavras me sorriu... Foi lindo...
Mas é mais que um passo estético, é o reconhecimento de mais uma parte da minha identidade negra... Meu cabelo não “é ruim”, não será mais bonito se eu “abrir” mais a raiz... Estou tentando ser restaurativa até com meu cabelo, hehehehe... Chegou de impor minha vontade "normalizante" sobre ele, agora quero entendê-lo melhor, me entender melhor...
Sou negra desde minha concepção, mas só nos últimos anos tenho refletido a esse respeito... Uma nova relação com o cabelo, uma nova relação com o espelho, uma nova relação com as pessoas... Onde minha principal busca é pelo respeito...

Fernanda Francisca da Silva

 


› Não é tão óbvio quanto parece!

No Natal de 2013, minha sobrinha e afilhada Júlia, de 12 anos pediu um notebook ao Papai Noel. Júlia é uma menina negra linda com tom de pele mais claro e com grande olhos cor de mel, ela mora com a mãe, e o pai mora no mesmo bairro de classe média em uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre.

Como eu não poderia entregar o presente pessoalmente à menina na noite de 24 de dezembro, resolvi mandar o notebook antes pelo seu pai para que ele o fizesse após a meia-noite. Ao entregar o pacote para meu irmão, me surpreendeu o fato dele solicitar que eu mandasse junto com o presente a nota do mesmo. Lembro que eu comentei "Ah, sim vou mandar os documentos que tem a lista das lojas que prestam assistência técnica". Mas ele frisou: "Não, manda a nota fiscal, sabe como é, pra não dar problema. A gente nunca sabe quando vai ter que provar a procedência do equipamento".

A sensação que se seguiu foi de completo mal estar; eu fiquei sem resposta, foi um misto de impotência e insegurança.

Eliana Xavier 
 


Desde pequeno achava que tinha algo errado comigo, pois eu não tinha cabelo cogumelo como alguns dos meus primos pares. Tenho mais negros na família, negros que não se declaram negros pois em suas certidões de nascimento consta no campo de raça, branca. Bom, queria muito ter aquele cabelo escorridinho, pois era o que representava a maioria das crianças brancas, felizes e alegres em propagandas de brinquedos e novelas infantis na época, então pedia pra minha mãe um tratamento que não deixasse meu cabelo encrespar. Não havendo tratamento algum, dos meus oito anos até minha adolescência, raspava meu cabelo de mês em mês. Outro fato que me recordo e que me causa desconforto até hoje, é de lembrar minha mãe me instruindo a NUNCA colocar a mão no bolso no super. Ela dizia que automaticamente iriam achar que eu era ladrão, e que algo ruim aconteceria comigo. 

Talvez o mais chocante ainda esteja por vir, pois um dia, quando criança tomei banho com um "bombril", para tirar a "sujeira", pois achava que eu não era normal sendo dessa cor.

Hoje em dia mescla muito o racismo com a homofobia, pois minha sexualidade e minha raça se interseccionam no meu corpo, e digo que antes o problema era ser negro, hoje é ser negro e gay!

Tiago Rodrigues

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